domingo, 15 de março de 2020

Ler Machado



O prazer em  ler Machado de Assis no ensino-médio, foi estragado pelos, vós e ais ' cena a cena, ou decifrando todas as palavras estranhas num glossário e estudando todas as notas acadêmicas de rodapé. O resultado disso é que eles nunca leram de fato Memórias de Brás Cubas. Quando eles chegavam ao final, já tinham esquecido o início e já tinham perdido a visão de conjunto. Em vez de serem forçados a adotar essa abordagem pedante, eles deveriam ser encorajados a ler o livro de uma vez só e discutir o que tivessem assimilado desta primeira e rápida leitura. Só então eles estariam prontos para estudar a narrativa cuidadosamente, porque já teriam entendido o suficiente sobre ela para aprenderem mais.

Com a experiência de quem tentou ler Machado com um dicionário do lado, posso dar um ótimo conselho, que serve a qualquer leitura: Leia sem se angustiar pelos pontos obscuros, pelas notas de rodapé herméticas, pelos neologismos mal-explicados e as referências exóticas. Essa primeira leitura, serve para se familiarizar com a obra em todos os seus aspectos: idéias centrais, estilo, vocabulário etc. Ela vai identificar os pontos mais ou menos difíceis, vai sinalizar para o tipo de ajuda de que talvez necessite, preparando-o para a segunda leitura e o alargamento de nossa compreensão.

Sei que nos ensinaram justamente o contrário, a procurar no dicionário qualquer termo obscuro, ou pesquisar sobre algum tema desconhecido que surja no texto. Isso não está errado, mas deve ser feito no momento certo, sem interromper a leitura inicial. Especialmente porque a preocupação com esses detalhes pode gerar uma  angústia fazendo com que a leitura se torne uma atividade penosa.