terça-feira, 27 de julho de 2021

Modelos de Interpretação

Em “Modelos de interpretação”, capítulo 9, Marcelo Dascal afirma que o homem é um caçador de significados, propondo a complementaridade dos modelos de interpretação que explicita em sua obra: o criptográfico, o hermenêutico, o pragmático, o superpragmático e o causal de estrutura profunda.

Segundo ele, no modelo criptográfico, o significado está ali, no texto, subjacente, pronto a ser desentranhado, dependendo de inferências. O centro do processo interpretativo seria de ordem semântica, cujos sinais e regras determinariam o significado.


No modelo hermenêutico, o significado é uma construção a ser engendrada pelo leitor, através do processo interpretativo, a partir de sua bagagem cultural ou background desse leitor-intérprete privilegiado.

Na visão de Dascal (2006), esses dois modelos de interpretação negligenciam o papel do produtor do signo, ignorando-o.

O modelo pragmático, pelo contrário, considera que o significado é produzido por um agente, cuja ação comunicativa é motivada por uma intenção. Esse é o modelo que Dascal (2006) propõe, destacando, para explicitar seu ponto de vista, que a ação comunicativa, qualquer que seja ela, só tem sucesso quando o leitor/ouvinte reconhece a intenção subjacente ao que é ouvido/lido. Em sua análise, Dascal (2006) comenta que o modelo pragmático, assim como o criptográfico, preconizam a suposição de que existem significados objetivos associados aos signos presentes no texto lido, tendo em vista a evolução das regras semânticas durante o desenvolvimento da linguagem. A diferença entre ambos os modelos está na forma como avaliam o papel do significado literal. Ao contrário do modelo pragmático, o criptográfico leva em consideração a decodificação semântica. Já o modelo pragmático propõe que a interpretação jamais consiste na mera decodificação semântica, pois é inegável a influência do contexto na interpretação.

Quanto ao modelo superpragmático, o autor comenta que seus proponentes acreditam que o intérprete consegue captar o significado do falante diretamente com base na informação contextual, sem a necessidade de considerar o significado semântico da elocução do falante (DASCAL, 2006, p. 221), o que acaba por eliminar o texto enquanto objeto cultural. É como se ele pudesse ser transparente, dizendo apenas aquilo que seu leitor quer que diga.
 
O modelo pragmático, ao unir o significado semântico com as intenções do autor/faltante, traz à tona outras variáveis ocultas no ato comunicativo, como as crenças, desejos e temores do falante. Assim, o leitor/ouvinte se envolve em uma atividade bastante complexa para a interpretação. A partir disso, alguns teóricos procuraram simplificar o processo, propondo uma interpretação radical, como a do modelo superpragmático, em que o intérprete começa do zero para tentar descobrir os valores das variáveis textuais, o que é muito questionável.


Na perspectiva de Dascal (2006, p. 227), interpretar um ato comunicativo significa tentar determinar o motivo do agente ou o seu objetivo comunicativo, segundo a escolha de meios efetuada em seu ato. Para o autor, o comportamento humano de forma geral e o comportamento comunicativo de forma particular estão enraizados em causas profundas, cujos agentes, em grande parte, não têm consciência. Assim, uma interpretação verdadeira deve descobrir essas causas, pois o significado é visto como produto de uma interação de forças subjacentes que determinam a atividade humana (DASCAL, 2006, p. 230). Nos modelos causais de estrutura profunda, as intenções e as razões, da mesma forma que os significados, são vistos como entidades derivadas.

Por fim, o autor propõe a união de todos esses modelos, considerando-os como complementares, embora tal complementaridade seja de difícil efetivação. Ele ressalta, ainda, que o modelo pragmático visa a preservar o homem, enquanto agente/sujeito responsável, livre e racional, que cria e é responsável por suas intenções.



terça-feira, 13 de julho de 2021

Precisamos da Leitura Proficiente


O desaparecimento da leitura proficiente na vida cotidiana é preocupante quando sabemos que ela é uma ferramenta fundamental na formação subjetiva das pessoas. Nos perguntamos sobre o que os meios de comunicação fazem conosco: da televisão ao computador, dos brinquedos ao telefone celular, somos formados por objetos e aparelhos.

Se em nossa época a leitura proficiente diminui vertiginosamente, ao mesmo tempo, cresce o elogio da ignorância, essa forma cognitiva impotente e, contudo, muito prepotente, alguém transforma o não saber em suposto saber, a resposta pronta é transformada em verdade.

Cancelada a curiosidade, como sinal de um desejo de conhecimento, a leitura proficiente se torna inútil. Assim, a ignorância que nos permite saber se opõe à que nos deforma por estagnação. A primeira gosta de leitura, a segunda detesta.

No limite, a ignorância mal cuidada torna-se discurso e prática de vida. O poder na sua forma violenta, se alimenta da ignorância e o ignorante se regozija quando não encontra nada que o negue. E porque não cuidamos da ignorância, ela domina a sociedade. Ela é transmitida, ela é “propagandeada”. A leitura proficiente é a antipropaganda, porque ela pede mais que publicidade, ela pede pensamento.

Há um nexo entre a ignorância como questão cognitiva e a ignorância como questão política? A ignorância filosófica nos faz perguntar. A ignorância usada como bomba atômica contra populações inteiras na política de extermínio do conhecimento e da ação política que dela derivaria, não nos deixa responder. A ignorância costura os olhos com fio de aço impedindo o despertar para os fatos.


A falta de pensamento reflexivo nos assusta e é a responsável pelo clima de embrutecimento que vivemos hoje. É bom saber que todo embrutecimento é produzido pelos sistemas que usam a burrice a seu favor.

A intolerância que vem sendo potencializada em todas as escalas, não é fruto do acaso. Mas, intencionalmente provocada... esse entendimento e discernimento, só será possível se mudarmos os rumos de nossa subjetivação.

Ou seja, precisamos da leitura proficiente. Não porque o pensamento dependa da gramática ou da língua formal, mas porque leitura proficiente é um tipo de experiência que nos ensina a desenvolver raciocínios, nos ensina a entender, a ouvir e a falar para compreender. Nos ensina a interpretar. Nos ajuda a elaborar questões, e fazer perguntas. Perguntas que nos ajudam a dialogar, ou seja, a entrar em contato com o outro. Nem que este outro seja, em um primeiro momento, apenas cada um de nós mesmos.

Precisamos da leitura proficiente, porque muitos de nós foram educados para não pensar, e consequentemente a não gostar do que não conhecemos.

A não gostar do mundo dos livros, mundo dos textos, um mundo das letras e palavras. A leitura proficiente se tornou tão essencial para a construção das sociedades democráticas que a luta por direitos se faz muitas vezes com a luta pela educação e a luta pela educação se faz também com a luta pela alfabetização.

Hoje falamos de acesso a meios de comunicação e transmissão da informação como a internet, mas o meio de acesso mais fundamental ao conhecimento sempre foi a leitura. Pois, ela implica um modo específico de percepção que também nos constrói no sentido da forma como nos afeta.

Não se trata, apenas dos conteúdos aos quais temos acesso, mas do tipo de pessoa que nos tornamos em função da experiência com a leitura. O que fazemos nos constrói intimamente, nossa experiência é o efeito do que fazemos e, certamente, do que é feito de nós.

Texto baseado em Marcia Tiburi - 31 de janeiro de 2016