domingo, 15 de março de 2020

A Leitura de Jouvê



A Leitura, de Vincent Jouve, pode ser considerado um tratado sobre as formas de participação e interferência do leitor no processo de leitura. Antes de 1970, os estudos dos processos de leitura não levavam em conta o desempenho do leitor. 

Para argumentação da sua própria obra, Jouve optou por uma abordagem conceitual e teórica. O toque de empirismo é dado pelos exemplos de obras literárias e sua contextualização em relação ao leitor. Aliás, os exemplos – trechos de livros que destacam as performances de interação com o leitor – são os melhores artifícios usados pelo autor na construção do seu próprio ponto de vista.

Após uma curta e necessária introdução, o primeiro capítulo traça aspectos gerais da atividade de leitura. O autor cita os vários tipos de processos (neurofisiológico, afetivo, cognitivo, argumentativo e simbólico) a fim de apresentar a leitura como um processo complexo e pluralizado. Ainda no primeiro capítulo o autor desenvolve a idéia dos problemas de recepção do texto. Numa das passagens mais interessantes em relação ao tema, Jouve cita a visão que Roland Barthes tem sobre a importância da releitura. O segundo capítulo do livro de Jouve questiona o papel e a função do leitor na construção do sentido da obra. Através de comparações e similaridades entre autores teóricos como Lintvelt, Picard, Eco e Iser. A estruturação e argumentação são obviamente válidas, mas a complexidade das abstrações contidas no texto dificulta o acesso e o entendimento do leitor à obra de Jouve. Não deixa de ser irônico, já que Jouve dispensa páginas e páginas da sua obra falando de como estudar ou mensurar o interesse do leitor.

Apesar das poucas restrições à apresentação da obra, a verdade é o que “A Leitura”, de Jouve, traz à tona reflexões interessantes e necessárias em relação ao papel do leitor. As abordagens teóricas que consideram o leitor como participante na construção do sentido da obra, são recentes e Jouve – através deste livro – consegue fazer uma mediação inteligente a respeito das várias teorias, escolas e abordagens que estudaram e pesquisaram o complexo e rico fenômeno de leitura. Após o segundo capítulo Jouve volta a tratar da interação texto-leitor. É nesta parte do livro que o autor deixa claro que “o texto, estruturalmente incompleto, não pode abrir mão da contribuição do leitor” (p.62). Aqui o autor ainda discorre sobre as quatro esferas essenciais que levam o leitor a completar o texto:
- verossimilhança
- seqüência das ações
- lógica simbólica
- significação geral da obra
Durante o terceiro capítulo surge também o conceito de “contrato de leitura”, que em poucas palavras significa aquilo que o autor propõe ao leitor, ou seja, um certo número de convenções programadas para a recepção do leitor.

Do quinto capítulo em diante, até à conclusão, o texto corre fácil e a leitura flui sem barreiras teóricas ao raciocínio e à assimilação do conteúdo expresso. O autor fala do prazer do jogo, estrutura sua argumentação – voltando a citar Picard – e capta com maestria o interesse de quem lê. No sexto capítulo ele passa a falar do impacto do texto em relação ao leitor.

A leitura, mais que um ato lógico e sistêmico, é um meio de contato com o que há de mais pessoal em cada um de nós. Para a leitura ser eficiente, há de se ter o cuidado de não ampliá-la e nem restringi-la demais, pois em ambos os casos, pode-se perder de vista o objeto principal: a especificidade, a mensagem da obra.