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Memória para Leitura

 


A memória desempenha um papel fundamental para a leitura, em todos os seus níveis. Sem memória, não conseguiríamos identificar as letras, nem os significados, não lembraríamos das frases anteriores, nem do que já sabemos sobre o assunto, ou seja, não sairíamos da primeira frase nunca. A atividade cerebral durante a leitura é tão intensa que ler é considerado um exercício de memória, aliás, o melhor de todos. A importância da memória de trabalho para o bom desempenho da leitura apoia-se principalmente na sua capacidade de processar, filtrar e distribuir as informações. De acordo com Margaret Matlin, pessoas com grande span de memória de trabalho apresentam mais exatidão e rapidez em compreender sentenças complexas e ambíguas, além de serem hábeis nos processos de inferência. Já, pesquisas de Valéria Abusamra apontam outros aspectos da leitura relacionados à memória de trabalho. De acordo com seus resultados, crianças com dificuldades na compreensão de textos apresentam um desempenho significativamente inferior nos testes de memória e de inibição, sugerindo que a relação entre o entendimento da leitura e a memória de trabalho poderia depender de habilidades de inibir informações irrelevantes. Por outro lado, inúmeros fatores podem interferir no processo de consolidação da memória, entre eles os estados de ânimo, as emoções, o nível de alerta, a ansiedade e o estresse.

A memória de longa duração está relacionada ao conhecimento prévio ou conhecimento de mundo, que exerce papel fundamental na formação do modelo situacional, portanto, na compreensão da leitura. Grande parte das dificuldades de leitura acontece pela insuficiência de conhecimentos lexicais ou enciclopédicos. Disso decorre que, muitas vezes, o leitor não consegue estabelecer relações do texto com o contexto e preencher as lacunas textuais nem apreender os conteúdos implícitos, através da produção de inferência.

As atividades de leitura devem ser pensadas a partir de cada texto, pois textos e gêneros distintos prestam-se a desenvolver diferentes habilidades. Além disso, uma forma de suprir a limitação ou a inexistência de conhecimentos relativos ao tema do texto é a proposição de atividades de pré-leitura, que tem o importante papel de estimular a elaboração de hipóteses e promover a busca de coerência por parte do leitor.

Conforme Anderson (2005, p.156), “o sistema de memória se adapta à estrutura estatística do ambiente tornando mais disponíveis as memórias que apresentam maior tendência de serem necessárias”, ou seja, a repetição é fundamental, tanto para adquirir quanto para reforçar a memória.

Na verdade, o que memorizamos não são as palavras que lemos, mas a interpretação dessas palavras, a nossa elaboração do que é lido. O mesmo acontece com qualquer outra informação, pois a memória não é uma fotografia da realidade, ela se compõe de uma série de traços que conectados recuperam a informação associada à imagem do corpo no momento, à emoção.

Estudos têm demonstrado que a emoção é um fator determinante para a memória e para a aprendizagem. Esse autor explica de que modo a emoção está associada aos processos da razão: os sentimentos nos permitem acessar a imagem do estado corporal em determinadas situações e conferem uma qualidade positiva ou negativa ao que é vivido. Tudo o que vivemos é memorizado juntamente com as emoções que sentimos naquele momento, essas emoções podem ser primárias, inatas e, muitas vezes, inconscientes. Podem também ser secundárias, ou aprendidas, constituindo-se basicamente do aprendizado resultante das experiências vividas.

É preciso que os alunos associem a leitura e o conhecimento não só ao contexto da escola (e às avaliações), mas a um contexto mais amplo, em que a leitura possa ser relacionada à busca de conhecimento, a convívio e à troca de experiências.




Um Processo Maravilhoso da Mente


Somos nós que capturamos as letras numa página, de acordo com as teorias de Euclides e Galeno? Ou são as letras que vêm aos nossos sentidos, como Epicuro e Aristóteles afirmavam?


A resposta pode ser encontrada na tradução de um livro escrito a duzentos anos pelo estudioso conhecido no Ocidente como Alhazen. Segundo ele, todas as percepções do mundo externo envolvem certa influência deliberada que deriva da nossa faculdade de julgar. A importância do argumento de Alhazen estava em identificar no ato de perceber, uma variante da ação consciente que vai do ver ao decifrar ou ler.


No momento em que o primeiro escriba arranhou e murmurou as primeiras letras, o corpo humano já era capaz de executar os atos de escrever e ler que ainda estavam no futuro. Ou seja, o corpo era capaz de armazenar, recordar e decifrar todos os tipos de sensação, inclusive os sinais arbitrários da linguagem escrita ainda por ser inventados. Essa noção de que somos capazes de ler antes de ler de fato - na verdade, antes mesmo de vermos uma página aberta diante de nós - leva-nos de volta à idéia platônica do conhecimento preexistente dentro de nós antes de a coisa ser percebida. A própria fala desenvolve-se seguindo um padrão semelhante. "Descobrimos" uma palavra porque o objeto ou idéia que ela representa já está em nossa mente, pronto para ser ligado à palavra. É como se nos fosse oferecido um presente do mundo externo (por nossos antepassados, por aqueles que primeiro falam conosco), mas a capacidade de apreender o presente é nossa. Nesse sentido, as palavras ditas (e, mais tarde, as palavras lidas) não pertencem a nós nem aos nossos pais, aos nossos autores: elas ocupam um espaço de significado compartilhado, um limiar comum que está no começo da nossa relação com as artes da conversação e da leitura.


Tal como o escriba sumério de milhares de anos atrás, eu vejo as palavras, e o que vejo organiza-se de acordo com um código ou sistema que aprendi e que compartilho com outros leitores do meu tempo e lugar - um código que se estabelecem em seções específicas do meu cérebro. "É como se as informações que os olhos recebem da página viajassem pelo cérebro através de uma série de conglomerados de neurônios especializados, cada conglomerado ocupando certa seção do cérebro e desempenhando uma função específica. Ainda não sabemos o que é exatamente cada uma dessas funções, tanto que, em certos casos de lesões cerebrais, um ou vários desses conglomerados ficam desconectados da cadeia, de tal modo que o indivíduo se torna incapaz de ler certas palavras, ou determinado tipo de linguagem, ou de ler em voz alta, ou substitui um conjunto de palavras por outro. Incrivelmente essas desconexões possíveis parecem infinitas".


Tampouco o ato primário de examinar uma página é um processo contínuo e sistemático. A suposição usual é que durante a leitura nossos olhos viajam suavemente, sem interrupções, ao longo das linhas. No entanto o oftalmologista francês Émile Javal, descobriu que nossos olhos na verdade saltam pela página; esses saltos acontecem, três ou quatro vezes por segundo, numa velocidade de cerca de duzentos graus a cada segundo.


A velocidade do movimento do olho pela página interfere na percepção, e é somente durante a breve pausa entre movimentos que nós realmente lemos. Por que nossa sensação de leitura está relacionada com a continuidade do texto sobre a página ou com o desenrolar do texto na tela, assimilando frases ou pensamentos inteiros, e não com o movimento real dos olhos, eis uma questão para a qual os cientistas ainda não têm resposta.


Para extrair uma mensagem desse sistema de sinais brancos e pretos, o cérebro reconstrói o código mediante uma cadeia conectiva de neurônios processadores que varia de acordo com a natureza do texto que estou lendo e compõe o texto com algo - emoção, sensibilidade física, intuição, conhecimento, alma - que depende de quem sou, de como me tornei o que sou. "Para compreender um texto”, escreveu o Dr. Merlin C. Wittrock na década de 1980, "nós não apenas o lemos, no sentido estrito da palavra: nós construímos um significado para ele”. Nesse processo complexo, "os leitores cuidam do texto. Criam imagens e transformações verbais para representar seu significado. E o que é mais impressionante: eles geram significado à medida que lêem, construindo relações entre seu conhecimento, sua memória de experiências, e as frases, parágrafos e trechos escritos”. Ler não é um processo automático de capturar um texto como um papel fotossensível captura a luz, mas um processo de reconstrução desconcertante, labiríntico, comum e, contudo pessoal. Os pesquisadores ainda não sabem se a leitura é independente, por exemplo, da audição, se é um conjunto único e distinto de processos psicológicos ou se consiste de uma grande variedade desses processos, mas muitos acreditam que sua complexidade pode ser tão grande quanto a do próprio pensamento. Ler, segundo o dr. Wittrock, "não é fenômeno caracteristicamente anárquico, e também não é um processo monolítico, unitário, no qual apenas um significado está correto. Ao contrário, trata-se de um processo generativo que reflete a tentativa disciplinada do leitor de construir um ou mais sentidos dentro das regras da linguagem”.


Sabemos que a leitura não é um processo que possa ser explicado por meio de um modelo mecânico; sabemos que ocorre em certas áreas definidas do cérebro, mas sabemos também que essas áreas não são as únicas a participar; sabemos que o processo de ler, tal como o de pensar, depende da nossa capacidade de decifrar e fazer uso da linguagem, do estofo de palavras que compõem texto e pensamento.


"Uma análise completa do que fizemos ao ler", seria a descrição de um dos funcionamentos mais complexos da mente humana. Ainda estamos longe de uma resposta. Misteriosamente, continuamos a ler sem uma definição satisfatória do que estamos fazendo.


O medo que os pesquisadores parecem sentir é o de que sua conclusão possa questionar a própria linguagem na qual a expressam: que a linguagem talvez seja em si mesma um absurdo arbitrário, que talvez não possa comunicar nada exceto em sua essência tartamudeante, que talvez dependa quase inteiramente, para existir, não de seus enunciadores, mas de seus intérpretes, e que o papel dos leitores talvez seja tornar visível - na fina expressão de Alhazen - aquilo que a escrita sugere em alusões e sombras.

Adaptação ao texto de Alberto Manguel
em "Uma História da Leitura"







Livros Que nos Mordam

Uma vez, andando por Praga com o filho de um colega, Kafka parou diante da vitrine de uma livraria. Vendo o jovem inclinar a cabeça de um lado para o outro a fim de ler o título dos livros enfileirados, ele riu: "Então você também é louco por livros, sua cabeça sacode de tanta leitura?". O jovem assentiu: "Acho que eu não poderia viver sem livros. Para mim eles são o mundo". Kafka ficou sério. "Isso é um erro", disse. "Um livro não pode tomar o lugar do mundo. É impossível. Na vida tudo tem seu sentido e seu propósito, e para isso não há substituto permanente. Um homem não pode, por exemplo, dominar sua própria experiência por meio de outra personalidade. É assim que está o mundo em relação aos livros. Tentamos aprisionar a vida num livro, como um canário na gaiola, não funciona... Lemos para fazer perguntas"!


A intuição de Kafka de que, se o mundo tem coerência, é uma coerência que não podemos compreender plenamente - se o mundo oferece esperança, ela "não é para nós? Num ensaio famoso, Walter Benjamin observou que para entender a visão de mundo de Kafka "não se deve esquecer o modo de ler de Kafka", comparado por Benjamin ao do Grande Inquisidor de Dostoievski no conto alegórico de Os irmãos Karamazov: "Temos perante nós", diz o Inquisidor ao Cristo retornando à Terra, "um mistério que não podemos apreender e, justo por ser um mistério, tivemos o direito de pregá-lo, de ensinar ao povo que o que importa não é a liberdade nem o amor, mas o enigma, o segredo, o mistério diante do qual eles devem se curvar - sem reflexão e mesmo sem consciência". Um amigo que viu Kafka ler em sua escrivaninha disse que ele lembrava a figura angustiada de um leitor de Dostoievski, que parece em transe enquanto lê o livro que segura.

Kafka desenvolveu uma maneira de ler que lhe permitia decifrar as palavras ao mesmo tempo em que questionava sua capacidade de decifrá-las, persistindo em compreender o livro e contudo, não confundindo as circunstâncias do livro com as suas próprias - como se estivesse respondendo tanto ao velho professor, que ridicularizava sua falta de experiência para entender o texto, como aos seus ancestrais rabínicos, para os quais um texto precisa provocar continuamente o leitor com a revelação.


Dizer que as leituras sempre ultrapassam em quantidade os textos que as geram é uma observação banal, mas algo de revelador sobre a natureza criativa do ato de ler está presente no fato de que um leitor pode se desesperar e outro rir exatamente na mesma página. As histórias de Kafka, nutridas pela experiência de leitura dele, ao mesmo tempo oferecem e tiram a ilusão de compreensão. É como se elas corroessem a arte do escritor Kafka a fim de satisfazer o Kafka leitor.

Em 1904, Kafka escreveu ao amigo Oskar Pollak: "No fim das contas, penso que devemos ler somente livros que nos mordam. Se o livro que estamos lendo não nos sacode e acorda como um golpe no crânio, por que nos darmos ao trabalho de lê-lo? Para que nos faça feliz, como diz você? Meu Deus, seríamos felizes da mesma forma se não tivéssemos livros. Livros que nos façam felizes, em caso de necessidade, poderíamos escrevê-los nós mesmos. Precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios. É nisso que acredito".

Alberto Manguel
Uma História da Leitura

Bibliocastia




É uma das loucuras mais perigosas relacionadas ao livro, que consiste na destruição de livros e bibliotecas. O escritor venezuelano Fernando Baez em sua História Universal da Destruição das Bibliotecas, percorre ao longo da história da humanidade, os motivos e impactos da destruição de livros. Na maioria das vezes, a destruição de livros é motivada por motivos religiosos (de cunho fanático) e políticos (censura). Assim como no período medieval, muitos livros foram preservados, muitos livros também foram queimados (às vezes junto a seus donos) por conterem conteúdos considerados hereges, contrários à fé cristã ou muçulmana. Na Alemanha nazista, a queima de livros precedeu a morte de milhares de pessoas. E também não faz muito tempo, uma igreja de segmento protestante dos Estados Unidos realizou uma grande queima de livros de Harry Potter da escritora britânica J.K. Rowling por fazer alusões à bruxaria.

  Autor: Fernando Mustafá
Original AQUI


Bibliotáfios




Bibliotáfios – táfios (tumbas) - colecionam seus livros, mas em oposição aos bibliófilos e bibliomanicos que os exibem, preferem escondê-los e têm o hábito de enterrá-los. O motivo que leva uma pessoa em sã consciência a fazer isso ainda não foi descoberto: testemunhas relatam que é por pensarem na preservação do conhecimento para gerações futuras. Como John Steward, que enterrou algumas obras nas quais acreditava estava contido um novo evangelho para salvação da humanidade. O caso extremo é quando essas pessoas possuem o desejo de, ao morrerem, serem enterradas com seus livros favoritos.

Autor: Fernando Mustafá
Original AQUI


Bibliofágos




Bibliofágos são os mais conhecidos e bizarros da espécie. Muito se escreve humoristicamente sobre eles, pois são devoradores de livros, literalmente. Não existem razões claras para afirmar o que faz com que pessoas comam papel. Segundo Tom Raabe em Biblioholism: The Literary Addiction, as pessoas comem porque pensam que dessa forma aumentarão sua compreensão ao conteúdo. Mas não é só no ramo dos livros que se ingere papel: um exemplo são as pílulas de Frei Galvão, que na verdade são papéis de arroz com inscrições e orações, distribuídas pelas irmãs do Mosteiro da Luz de São Paulo, para cura, milagres e para ajudar as fiéis engravidarem.

Autor: Fernando Mustafá
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Bibliocleptomania




A história da bibliocleptomania é tão antiga quanto à história das bibliotecas e seus motivos podem ser mais bem entendidos com o contexto de cada época. Não se sabe ao certo a origem desta palavra, mas o dicionário Houaiss de língua portuguesa o define como “compulsão, vício ou mania de furtar livros”.

Bibliocleptas ou bibliocleptomaníacos preferem as bibliotecas por parecerem mais fáceis e acessíveis ao invés de livrarias ou museus. Lawrence S. Thompson em Notes on Bibliocleptomania relata nomes de ladrões famosos desde a Antiguidade aos tempos modernos. O interessante, que bibliocleptomaníacos geralmente pertencem às mais altas classes da sociedade ou são intelectuais.

Autor: Fernando Mustafá
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Bibliofilia





Apesar de se ter noção de que o amor pelos livros e pela escrita remonta desde que a homem começou a colecionar manuscritos e a formar bibliotecas, a primeira grande menção na literatura surge em 1344, por meio do arcebispo Richard de Bury, que também foi chanceler e tutor de Henrique II, na Inglaterra. Ele escreveu um verdadeiro tratado de amor e cuidado para com os livros que ficou mundialmente conhecido como Philobiblion, do grego – Philo (amor) e Biblion (livro). Traduzindo à letra, um bibliófilo é um amante de livros.

Ao longo do estudo e das leituras, encontramos algumas definições que refletem o estado de ser daqueles que possuem bibliofilia – ou seja, dos bibliófilos - bem como em algumas das definições diferenciando o bibliófilo do bibliomaníaco.

O primeiro é sempre o puro de coração, tomado de amor pelos seus livros, o que faz com que cuide deles como se fossem o maior tesouro do mundo, pela sua raridade, beleza, encadernação, pelo seu conteúdo etc., enquanto que o segundo é sempre visto como um indivíduo tomado pelo desejo incontrolável de possuir livros e mais livros, mas sem se importar em lê-los ou absorver algum conhecimento, em alguns casos tomados por ansiedade ou como um distúrbio mental.

Citando o bibliógrafo alemão Hans Bohaster: “O bibliófilo é o mestre de seus livros, o bibliomaníaco seu escravo”.

A bibliofilia também está intrinsecamente ligada à leitura, como ilustra a Castro Alcântara: Não se ama de fato os livros sem cultivar o costume da leitura. O verdadeiro bibliófilo é antes de mais nada um leitor contumaz. Distingue-se do bibliômano, que se apraz em comprar e colecionar livros raros, pelo prazer da posse, sem valorizar o conteúdo. O colecionismo estéril, individualista, é apenas um ativo atraente e um símbolo de prestígio social, despojado da chama que anima a bibliofilia autêntica: o espírito do leitor.

No entanto, o que está por trás da Bibliofilia não é o apego excessivo à leitura, mas o amor pelos livros, simplesmente por serem livros, assim como existem pessoas que colecionam e admiram outras coisas como flores ou filmes, por exemplo.

Um bibliófilo não consegue viver sem seus livros, apesar de “loucura mansa”, geralmente não chega a ser um distúrbio, como na bibliomania.

Autor: Fernando Mustafá
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Bibliomania




A principal diferença entre bibliofilia e bibliomania está baseada na motivação. Enquanto que para os bibliomaniacos não existe limite ou controle para o ato de se comprar e acumular quantos livros for possível, os bibliófilos, que também são famosos por acumularem livros, os compram pelo apreço e conhecimento. É como se os primeiros se importassem com a quantidade enquanto que os segundos pela qualidade, importância e valor do livro.

A diferença às vezes é muito tênue entre um ou outro e apesar de serem comportamentos muito antigos, são influenciados por características sociais, econômicas e culturais diferentes.

A diferença entre bibliófilo e bibliómano, não é a essência, mas o grau de intensidade. Muitas ocasiões, a bibliofilia degenera em bibliomania. E por isso, o bibliómano pode ser um homem ilustrado, um escritor, um investigador, sequioso de encontrar documentos e temas para os seus trabalhos. Qualquer destes indivíduos, porém, sente gosto em mostrar as suas coleções, experimenta vaidade em ter obras raras, que mais ninguém possua.

Em geral, coleções particulares de livros refletem os gostos literários de seus possuidores e nascem com o desejo particular de adquirir conhecimento sobre determinado assunto. Os bibliomaníacos não possuem esse crivo.

Pela sua formação etimológica, bibliomania pode ter o significado de loucura dos livros - biblio (livros) e mania (de loucura, excesso). Na literatura também encontramos autores que afirmam que é uma doença, um distúrbio, que na maioria das vezes pode ser tanto benéfico quanto maléfico e assim como procuramos distinguir as definições entre bibliofilia e bibliomania, muito se confundiu por amor e loucura pelos livros.

Existem algumas divergências também nas definições daqueles que foram contaminados pela mania de colecionar livros. W. T. Rogers, por exemplo, argumenta que “um bibliomaníaco é aquele que compra aleatoriamente e tem gosto em caçar as maiores raridades com o único objetivo de possuí-las” ao passo que Falcone Madan afirma “que os bibliomaníacos vivem apenas pela caça (sentido de aquisição) e por isso desprezam se são caros ou baratos”.

Dessa forma, podemos considerar características da bibliomania como uma excessiva consideração, estima e cuidado por livros; assim como uma obsessão ou paixão desordenada por muitos livros. Agora o que torna uma pessoa bibliomaníaca é uma questão difícil de responder por que não existe uma causa geral e de certa forma todas estão entrelaçadas entre si.

É importante realçar que a bibliomania, pode ser tanto adquirida por diversos fatores quanto pode também ter causas naturais, ou seja, a pessoa já nasce com os sintomas bibliomaníacos.

Autor: Fernando Mustafá
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Cérebros do Leitor


Toda vez que você começa a ler, seu cérebro está à procura de razões para continuar lendo. Nesse processo, o texto é avaliado por quatro elementos diferentes: instinto, emoções, pensamentos e intuições. Cada um deles funciona como um cérebro semi-independente, com preocupações e vontades próprias. Atente! Essa subdivisão é teórica, mas ajuda entender o processo da leitura em nosso cérebro.

Cérebro Instintivo
Quer me matar? Vai me dar prazer? É de comer? 

Seu principal objetivo é proteção da nossa integridade física. Ele está sempre atento aos estímulos do ambiente em que nos encontramos, determinando potenciais ameaças, fontes de prazer, e fontes de nutrição. O cérebro instintivo é responsável por eliminar informações desnecessárias, e focar apenas no que pode colocar nossa vida em risco, trazer prazer imediato, ou servir de alimento. Qualquer história que parecer inofensiva, desinteressante, ou inútil será descartada pelo cérebro instintivo. As histórias que estimulam esse cérebro criam conflitos que colocam em risco algo importante na vida do protagonista. Usando figuras de linguagem para dar mais sabor ao texto. Despertando perguntas intrigantes na mente do leitor sobre um tema específico.

Cérebro Emocional
Tem alguma relação com a minha vida?

Quando uma mensagem é percebida como importante, interessante e excitante, ela é transferida do cérebro instintivo para o emocional. Seu principal objetivo é encontrar benefícios emocionais e sociais nos estímulos recebidos, tais como sensações de conforto, segurança, pertencimento, status, estima. Qualquer história que não mexer com alguma dessas sensações será descartada pelo cérebro emocional. As histórias que estimulam esse cérebro permitem que o leitor reflita sobre suas relações pessoais e sociais. Incluindo cenas que mostram o que está acontecendo, ao invés de apenas contar o que está acontecendo. Fazendo com que o protagonista aprenda algo sobre si, sobre as pessoas, e sobre o mundo ao final da história.

Cérebro Racional
Qual é o sentido disso tudo?

Depois de ultrapassar os filtros dos dois cérebros anteriores, o estímulo chega na parte da mente que pensa de forma lógica e complexa. Em muitos casos, decisões são tomadas pelos dois cérebros anteriores, e racionalizadas por este cérebro para justificá-las. Seu principal objetivo é reavaliar de forma sistemática a validade das informações que chegaram até ele. Qualquer história que não seja clara e coerente será descartada pelo cérebro racional. As histórias que estimulam o cérebro racional criam conflitos que estabeleçam uma sequência lógica de acontecimentos, onde cada ação/decisão do protagonista resulte em uma consequência. Usando linguagem clara e adequada à história que está sendo contada. Desenvolvendo um protagonista verossímil, contextualizando suas emoções e comportamentos.

Cérebro Intuitivo
Alguma coisa me diz que isso está certo.

Quando uma mensagem traz uma recompensa emocional, mas não conseguimos explicá-la usando somente lógica, o cérebro intuitivo entra em ação. Seu objetivo é acomodar o inexplicável, é tranquilizar os cérebros anteriores com a ideia de que nem todas as emoções e sensações podem ser explicadas racionalmente. Os estímulos que chegam até o cérebro intuitivo mexem com nossos valores morais e nossa espiritualidade. As histórias que estimulam o cérebro intuitivo criam conflitos e personagens baseados em arquétipos. Incluindo passagens que permitam ao leitor refletir sobre sua mortalidade e humanidade. Apresentando uma verdade humana que ofereça um sentido para tudo o que o protagonista viveu durante a história.





A Leitura de Jouvê



A Leitura, de Vincent Jouve, pode ser considerado um tratado sobre as formas de participação e interferência do leitor no processo de leitura. Antes de 1970, os estudos dos processos de leitura não levavam em conta o desempenho do leitor. 

Para argumentação da sua própria obra, Jouve optou por uma abordagem conceitual e teórica. O toque de empirismo é dado pelos exemplos de obras literárias e sua contextualização em relação ao leitor. Aliás, os exemplos – trechos de livros que destacam as performances de interação com o leitor – são os melhores artifícios usados pelo autor na construção do seu próprio ponto de vista.

Após uma curta e necessária introdução, o primeiro capítulo traça aspectos gerais da atividade de leitura. O autor cita os vários tipos de processos (neurofisiológico, afetivo, cognitivo, argumentativo e simbólico) a fim de apresentar a leitura como um processo complexo e pluralizado. Ainda no primeiro capítulo o autor desenvolve a idéia dos problemas de recepção do texto. Numa das passagens mais interessantes em relação ao tema, Jouve cita a visão que Roland Barthes tem sobre a importância da releitura. O segundo capítulo do livro de Jouve questiona o papel e a função do leitor na construção do sentido da obra. Através de comparações e similaridades entre autores teóricos como Lintvelt, Picard, Eco e Iser. A estruturação e argumentação são obviamente válidas, mas a complexidade das abstrações contidas no texto dificulta o acesso e o entendimento do leitor à obra de Jouve. Não deixa de ser irônico, já que Jouve dispensa páginas e páginas da sua obra falando de como estudar ou mensurar o interesse do leitor.

Apesar das poucas restrições à apresentação da obra, a verdade é o que “A Leitura”, de Jouve, traz à tona reflexões interessantes e necessárias em relação ao papel do leitor. As abordagens teóricas que consideram o leitor como participante na construção do sentido da obra, são recentes e Jouve – através deste livro – consegue fazer uma mediação inteligente a respeito das várias teorias, escolas e abordagens que estudaram e pesquisaram o complexo e rico fenômeno de leitura. Após o segundo capítulo Jouve volta a tratar da interação texto-leitor. É nesta parte do livro que o autor deixa claro que “o texto, estruturalmente incompleto, não pode abrir mão da contribuição do leitor” (p.62). Aqui o autor ainda discorre sobre as quatro esferas essenciais que levam o leitor a completar o texto:
- verossimilhança
- seqüência das ações
- lógica simbólica
- significação geral da obra
Durante o terceiro capítulo surge também o conceito de “contrato de leitura”, que em poucas palavras significa aquilo que o autor propõe ao leitor, ou seja, um certo número de convenções programadas para a recepção do leitor.

Do quinto capítulo em diante, até à conclusão, o texto corre fácil e a leitura flui sem barreiras teóricas ao raciocínio e à assimilação do conteúdo expresso. O autor fala do prazer do jogo, estrutura sua argumentação – voltando a citar Picard – e capta com maestria o interesse de quem lê. No sexto capítulo ele passa a falar do impacto do texto em relação ao leitor.

A leitura, mais que um ato lógico e sistêmico, é um meio de contato com o que há de mais pessoal em cada um de nós. Para a leitura ser eficiente, há de se ter o cuidado de não ampliá-la e nem restringi-la demais, pois em ambos os casos, pode-se perder de vista o objeto principal: a especificidade, a mensagem da obra. 




Leitura da Utopia


As utopias, “sonhos da razão”, se caracterizam por parecerem irreais, contrastando com a irracionalidade reinante nas relações sociais, enquanto as distopias, caracterizadas na imaginação literária do século XX pela fúria dominadora da racionalidade, assinalam que “o sonho da razão produz monstros”.

As distopias induzem, assim, a uma reflexão crítica sobre discursos fundadores da modernidade: a noção de progresso e a fé na ciência e na tecnologia como solução para os problemas. A ambiguidade e a contradição com que a noção de “progresso” afetou vidas, sociedades, sistemas e meio ambiente ao longo do século XX resultam num questionamento imediato sobre o caos do progresso.

Ao trazer para o leitor a possibilidade de antecipar na imaginação as possíveis decorrências das ações, a ficção científica especulativa distópica, tem um caráter de narrativa mítica que leva o leitor a contemplar, no presente, “as ruínas do futuro”. Grandes dificuldades se apresentam a quem se dedica ao esforço de imaginar um futuro – de um presente em crise –, implicando também em diálogos com o passado, não num trabalho mnemônico que vise ao mero relato histórico, mas sim na tentativa de compreensão de suas trajetórias e percursos sociais, históricos, econômicos, ecológicos e éticos.

Olhar para o passado com a consciência do que aconteceu posteriormente requer sempre o apelo à relativização, posto que tal digressão pode induzir a anacronismos, mas tal tarefa se coloca e se impõe em momentos de crise e esta análise pode ser fundamental para uma revisão vital do olhar que se pode lançar não sobre o passado, mas sim sobre o devir e a construção do futuro.

A literatura de ficção científica também possibilita ao leitor o exercício imaginativo de se colocar no lugar do homem do futuro, de viver a realidade do cenário diegético, de sentir, pensar e agir num mundo virtual e de lá olhar o presente com os olhos do outro.

As distopias literárias constantemente abordam temas ou contextos que atingem pontos-chave dos perigos e temores que assombram a humanidade quando confrontada com o futuro, resultando na construção de cenários que são sínteses das questões fundamentais ligadas aos problemas e decorrências da civilização ocidental, bem como dos percursos por ela trilhados, fazendo refletir tanto para frente quanto para trás.

Assim, textos escritos há mais de um século já colocavam questões sociais e ambientais que se tornaram paulatinamente mais próximas da realidade dos leitores, ainda que no momento em que foram escritos tais contextos poderiam parecer prenúncios apocalípticos impossíveis.

Chamado a preencher os hiatos do percurso entre a sua atualidade concreta e o cenário futuro criado no texto de ficção literária, o leitor constrói trajetórias para a humanidade, para a sociedade planetária, ou mesmo para as comunidades interpretativas a que pertence, incluindo, nesta perspectiva, o que concerne ao possível e ao impossível, às aspirações, aos desejos projetados, aos medos e perigos pronunciados, à cíclica recorrência de fatos históricos ou ao temor do desconhecido. Como outros mitos, a ficção científica também tem uma dimensão cosmogênica, só que nela a cosmogonia é metafórica e se opera ao contrário: ao invés de organizar os mundos ancestrais e origens ontológicas, o mito criado na narrativa da ficção científica descreve acontecimentos futuros que se originam nas possíveis ações do presente.

Ao lidar com medos e temores contemporâneos, a ficção especulativa resulta abordando as consequências, trajetórias, decorrências, problemas históricos e atuais da civilização ocidental, conclamando o leitor à reflexão e implicando também num duplo envolvimento, tanto emocional quanto racional, com a temática abordada, o que sugere a literatura como ampliadora da capacidade de mobilização crítica do leitor frente à realidade e o aumento do grau de consciência dos problemas contemporâneos.

O medo faz parte das decorrências do progresso da civilização. À palavra “progresso” aproxima-se, de início, num campo semântico positivo, na significação de um avanço contínuo em direção a algo melhor, ligando-se à noção de êxito, de coisa desejável. Entretanto, ao progresso associa-se também o medo, sentimento ancestral humano que se relaciona a perigo, a algo a ser evitado, ao que não apenas se rejeita como também se deve fugir, com forte significação cultural negativa. Este duplo caráter do progresso e do avanço técnico-científico é a quinta-essência da civilização e do homem moderno, inserido numa sociabilidade fundada em paradoxos. E é o núcleo argumentativo da literatura especulativa.

Não se deve, contudo, pensar a literatura de ficção científica como instrumento de mera antecipação de questões científicas, sociais, tecnológicas, políticas, econômicas, ambientais ou de ferramenta para a proposição de possíveis soluções. Pelo contrário, o que há de se considerar é a imensa potencialidade que carrega para estabelecer, por meio do pulsar estético da arte, terrenos fecundos para o pensamento crítico sobre temas contemporâneos, como identidade, ética, responsabilidade, meio ambiente e futuro, mobilizando sujeitos-leitores para uma existência mais responsável e prudente. A catarse literária pode viabilizar a contemplação das ruínas do futuro e dar ao leitor a chance de uma reflexão crítica mais abrangente, uma visão imaginária das possibilidades (perversas ou utópicas) de construção coletiva do porvir. E a literatura de ficção científica, relacionando palavras, memória e futuro, pode alcançar, assim, funções heurísticas e educativas adicionais às estéticas do pensar.