quarta-feira, 18 de março de 2020

Um Processo Maravilhoso da Mente


Somos nós que capturamos as letras numa página, de acordo com as teorias de Euclides e Galeno? Ou são as letras que vêm aos nossos sentidos, como Epicuro e Aristóteles afirmavam? 


A resposta pode ser encontrada na tradução do de um livro escrito a duzentos anos pelo estudioso conhecido no Ocidente como Alhazen. Segundo ele, todas as percepções do mundo externo envolvem certa influência deliberada que deriva da nossa faculdade de julgar. A importância do argumento de Alhazen estava em identificar no ato de perceber, uma variante da ação consciente que vai do ver ao decifrar ou ler.


No momento em que o primeiro escriba arranhou e murmurou as primeiras letras, o corpo humano já era capaz de executar os atos de escrever e ler que ainda estavam no futuro. Ou seja, o corpo era capaz de armazenar, recordar e decifrar todos os tipos de sensação, inclusive os sinais arbitrários da linguagem escrita ainda por ser inventados. Essa noção de que somos capazes de ler antes de ler de fato - na verdade, antes mesmo de vermos uma página aberta diante de nós - leva-nos de volta à idéia platônica do conhecimento preexistente dentro de nós antes de a coisa ser percebida. A própria fala desenvolve-se seguindo um padrão semelhante. "Descobrimos" uma palavra porque o objeto ou idéia que ela representa já está em nossa mente, pronto para ser ligado à palavra. É como se nos fosse oferecido um presente do mundo externo (por nossos antepassados, por aqueles que primeiro falam conosco), mas a capacidade de apreender o presente é nossa. Nesse sentido, as palavras ditas (e, mais tarde, as palavras lidas) não pertencem a nós nem aos nossos pais, aos nossos autores: elas ocupam um espaço de significado compartilhado, um limiar comum que está no começo da nossa relação com as artes da conversação e da leitura.


Tal como o escriba sumério de milhares de anos atrás, eu vejo as palavras, e o que vejo organiza-se de acordo com um código ou sistema que aprendi e que compartilho com outros leitores do meu tempo e lugar - um código que se estabelecem em seções específicas do meu cérebro. "É como se as informações que os olhos recebem da página viajassem pelo cérebro através de uma série de conglomerados de neurônios especializados, cada conglomerado ocupando certa seção do cérebro e desempenhando uma função específica. Ainda não sabemos o que é exatamente cada uma dessas funções, tanto que, em certos casos de lesões cerebrais, um ou vários desses conglomerados ficam desconectados da cadeia, de tal modo que o indivíduo se torna incapaz de ler certas palavras, ou determinado tipo de linguagem, ou de ler em voz alta, ou substitui um conjunto de palavras por outro. Incrivelmente essas desconexões possíveis parecem infinitas".


Tampouco o ato primário de examinar uma página é um processo contínuo e sistemático. A suposição usual é que durante a leitura nossos olhos viajam suavemente, sem interrupções, ao longo das linhas. No entanto o oftalmologista francês Émile Javal, descobriu que nossos olhos na verdade saltam pela página; esses saltos acontecem, três ou quatro vezes por segundo, numa velocidade de cerca de duzentos graus a cada segundo.


A velocidade do movimento do olho pela página interfere na percepção, e é somente durante a breve pausa entre movimentos que nós realmente lemos. Por que nossa sensação de leitura está relacionada com a continuidade do texto sobre a página ou com o desenrolar do texto na tela, assimilando frases ou pensamentos inteiros, e não com o movimento real dos olhos, eis uma questão para a qual os cientistas ainda não têm resposta.


Para extrair uma mensagem desse sistema de sinais brancos e pretos, o cérebro reconstrói o código mediante uma cadeia conectiva de neurônios processadores que varia de acordo com a natureza do texto que estou lendo e compõe o texto com algo - emoção, sensibilidade física, intuição, conhecimento, alma - que depende de quem sou, de como me tornei o que sou. "Para compreender um texto”, escreveu o Dr. Merlin C. Wittrock na década de 1980, "nós não apenas o lemos, no sentido estrito da palavra: nós construímos um significado para ele”. Nesse processo complexo, "os leitores cuidam do texto. Criam imagens e transformações verbais para representar seu significado. E o que é mais impressionante: eles geram significado à medida que lêem, construindo relações entre seu conhecimento, sua memória de experiências, e as frases, parágrafos e trechos escritos”. Ler não é um processo automático de capturar um texto como um papel fotossensível captura a luz, mas um processo de reconstrução desconcertante, labiríntico, comum e, contudo pessoal. Os pesquisadores ainda não sabem se a leitura é independente, por exemplo, da audição, se é um conjunto único e distinto de processos psicológicos ou se consiste de uma grande variedade desses processos, mas muitos acreditam que sua complexidade pode ser tão grande quanto a do próprio pensamento. Ler, segundo o dr. Wittrock, "não é fenômeno caracteristicamente anárquico, e também não é um processo monolítico, unitário, no qual apenas um significado está correto. Ao contrário, trata-se de um processo generativo que reflete a tentativa disciplinada do leitor de construir um ou mais sentidos dentro das regras da linguagem”.


Sabemos que a leitura não é um processo que possa ser explicado por meio de um modelo mecânico; sabemos que ocorre em certas áreas definidas do cérebro, mas sabemos também que essas áreas não são as únicas a participar; sabemos que o processo de ler, tal como o de pensar, depende da nossa capacidade de decifrar e fazer uso da linguagem, do estofo de palavras que compõem texto e pensamento.


"Uma análise completa do que fizemos ao ler", seria a descrição de um dos funcionamentos mais complexos da mente humana. Ainda estamos longe de uma resposta. Misteriosamente, continuamos a ler sem uma definição satisfatória do que estamos fazendo.


O medo que os pesquisadores parecem sentir é o de que sua conclusão possa questionar a própria linguagem na qual a expressam: que a linguagem talvez seja em si mesma um absurdo arbitrário, que talvez não possa comunicar nada exceto em sua essência tartamudeante, que talvez dependa quase inteiramente, para existir, não de seus enunciadores, mas de seus intérpretes, e que o papel dos leitores talvez seja tornar visível - na fina expressão de Alhazen - aquilo que a escrita sugere em alusões e sombras.

Adaptação ao texto de Alberto Manguel
em "Uma História da Leitura"